A charcutaria está para os homens, assim como a confeitaria está para as mulheres.
Sem generalizações do tipo, mas imagino que a maioria dos chefes, ou cozinheiros de plantão, sinta algo especial por essa área da Gastronomia que cuida dos embutidos, curados e defumados.
Há muito tempo, ando flertando com a idéia de fazer meu próprio bacon. Mas os deveres gritam, e a diversão tem sempre que ser adiada.
Adiada, porém não cancelada!
No Brasil o bacon é conhecido por todos, faz parte da feijoada nosso prato nacional; mas não somos os únicos amante dessa delícia perigosa!
O tão temido sal, e a gordura do bacon não espantaram os britanicos, americanos e outros povos que o consomem logo de cara no café da manhã, bem como durante todo o dia nas refeições.
É feito a partir da barriga do porco, curada e defumada. A produção do bacon em larga escala data de 1770 na cidade inglesa de Wiltshire, porém muito antes disso, já era bastante consumido na Europa.
O processo de cura pode ser seca (em sal) como os primeiros produzidos em Wiltshire, ou úmida (em salmoura) como os atualmente produzidos na Dinamarca.
Desde a introdução do refrigerador a quantidade de sal utilizada no processo diminuiu notadamente.
No caso da pancetta italiana, a barriga de porco acaba levando um pouco mais de açúcar do que a versão que conhecemos. Também leva temperos como cravo e pimenta, e é conhecido por seu formato enrolado. Na Italia, muitos pratos iniciam com uma mistura de cebolas e bacon chamada soffritto (podendo ser comparado ao “alho e cebola” usado como aromático em muitos pratos de nossa cozinha.)
Na França costuma ter os mesmos usos que conhecemos, chamado poitrine fumé (quando apenas defumado) e bacon (quando curado e defumado) é indispensável na quiche lorraine. Finas fatias de bacon podem ser usadas para lardear*.
A palavra bacon deriva do francês antigo bakko, querendo dizer presunto e vindo do alemão porco. Em francês havia tornado bacon qualquer pedaço de porco salgado ou o porco inteiro (o repas baconique / banquete baconístico/ é um festival onde apenas porco é servido). A palavra foi adotada pela língua inglesa e retornou ao francês com o significado atual.
Em espanhol é conhecido por tocino, alemão speck e polonês slonina.
Curando seu próprio bacon
O processo de cura escolhido foi o seco, onde a carne recebe uma mistura de sal e açucar, e deve repousar por alguns dias. O sal nesse processo tem a função de desidratar e penetrar na carne de forma a conservá-la. O açúcar por sua vez mantém a maciez da carne, uma vez que perdendo parte de sua água tenderia a se tornar dura (como acontece na carne seca).
O sal de cura, é facultativo, mas como agente químico garante a não-proliferação de microorganismos indesejados. Usa-se com extrema parcimônia, ao passo que é ainda mais prejudicial à saúde do que o primo-pobre cloreto de sódio. O sal de cura que usei é composto por: cloreto de sódio, eritorbato de sódio, nitrito e nitrato de sódio.
Resumindo: é muito sódio!
Este, em excesso faz com que haja retenção de água no organismo por conta do aumento da concentração de sais no sangue. Para diluir o sal, o sangue precisa de mais água,consequentemente mais volume, isso faz com que a pressão aumente, causando lesões em microvasos como os da retina, rins etc.
O sódio, porém não pode ser totalmente excluído da dieta, uma vez que é importante para a transmissão nervosa, contração muscular e equilíbrio de fluídos no corpo.
Mistura para cura
para curar 1 kg
- 90 g de sal
- 10 g de sal de cura
- 35 g de açúcar mascavo
Misture os ingredientes em um recipiente, e aplique em toda a extensão da barriga, esfregando e massageando suavemente toda a carne, sem esquecer nenhuma parte.
Acomode a barriga no interior de um saco hermético do tipo zip-lock, ou envolva em bastante filme plástico para que fique completamente vedada. Em poucos minutos a carne começará a desidratar, e neste momento, não devemos perder esses líquidos.
O processo de cura deve demorar de 7 a 10 dias. A barriga deve ser mantida refrigerada todo o tempo, e a cada dia deve ser virada. Desta forma, um dia a carne, outro o couro, ficará em contato com o líquido formado (que estará sempre na parte de baixo né!).
Meu bonitinho está na geladeira, e semana que vem continuo a aventura, supervisionada em tempo real pelos leitores.
O sal de cura deve ser usado na proporção de 10 g para cada kilo de carne. A marca é Dourado, comprei na banca G Frederico, no mercadão de São Paulo, custou $5.
LARDEAR: consiste em introduzir bacon, ou outros cortes gordurosos de porco (e as vezes, vegetais) em grandes pedaços de carne, afim de agregar sabor , umidade e maciez.
Referências:
New Larousse Gastronomique
Garde Manger: The art and craft of cold kitchen
Charcuterie: The Craft of Salting, Smoking and Curing
21 Comentários so far
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“Primo pobre, cloreto de sódio”
Adoro a interdisciplinaridade de gastronomia/química nesse blog! Talvez seja por isso, também, que tenha ganhado o concurso dos blogs (e merecidamente)!
Parabéns chef!
Estou ansioso para ver o Bacon pronto!
Abraços!
Comentário por Caio 09.30.10 @ 0:22Oi Diego…
Nossa, essa peça tá linda hemm, louca tbm para ver o resultado final.
Adorei a correlação entre homens, mulheres, charcutaria e confeitaria. hehe
Abs
Olá!
Muito tentador fazer a cura do bacon em casa assim! A barriga do porco é a pancetta, é isso?
Gostei do post!
Ah, e parabéns pelo concurso dos blogs que viram livro! Mto bacana mesmo, vai ser um belo livro!
Abraço!
Comentário por Richie 09.30.10 @ 9:09Seria possível fazer o processo apenas com o sal normal, sem utilizar o sal de cura?
PArabéns pelo excelente blog. Testei sua receita de Aussiebread e o resultado foi bastante bom.
Abraços,
Ahhhhhhhhh, Ateh q Enfim vou Poder Ter um Bacon Pra chamar de Meu,!
kkkkkkkkkkkkkk
PArabens
Comentário por thigatinho 09.30.10 @ 17:41peça linda de bacon
Não deu pra comprar o sal de cura em Sampa e aqui no mato não encontrarei. Sem ele fica muito diferente?
Ou poderia fazê-lo somente na salmora?
Abraços.
Luiz, pode fazer com sal comum sim. Tomando cuidado redobrado com as temperaturas, nessa e nas seguintes etapas.
Comentário por Diego Barreto 10.03.10 @ 2:58[...] vocês leram aqui, meu filhote bacon passou a última semana e o feriado de Nª Senhora na geladeira, esfriando um [...]
Pingback por ThinkFood 10.12.10 @ 23:55Oi Diego…tenho acompanhado em silencio seu blog por algum tempo…rs, mas nao resisti dessa vez e quis comentar…rs
Adoro o jeito como vc escreve, eu tb adoro quimica, faço engenharia, mas sou apaixonada por cozinha e comilança.. hahah!
Beijos no coração e fique com Deus
[...] você já aprendeu a iniciar a cura aqui. E como defumar aqui. É chegada a [...]
Pingback por ThinkFood 10.29.10 @ 1:18apesar de eu nao comer carne suina, o seu bacon esta perfeito. eu poderia utilizar esta tecnica com outro tipo de carne?
Comentário por joana pães 12.04.10 @ 17:00ola meu novo amigo…. estou com uma duvida…como estou fora do pais, gostaria de saber se tem como eu fazer esse bacon sem ter que colocar o SAL DE CURA…. muito obrigado aguardo resposta…
Comentário por flavio 02.15.11 @ 3:12Muito bom! Prarabéns
Sou um iniciante na charcutaria, construí meu defumador e aqui vou eu!
Ótimo Blog.
Oi Diego, finalmente comecei a processar essa arte, optei por usar o salmão ( que você já tinha me explicado) e peito de frango, aí que está minha dúvida: quantos dias os mantenho por lá devidamente salgados e fechados? Beijos!
Comentário por Priscila 02.16.12 @ 22:30sou iniciante no ramo de defumaçao, apesar de ter um conhecimento em carnes e derivados,estou procurando tecnicas,e pesquisando todos os produtos. e teoricamente este bacom esta excelente… parabens.
Comentário por fabio 04.09.12 @ 18:06Olá Diego! Estou acompanhando atentamente a receita, porém, tenho duas dúvidas: * Onde entra o processo de defumação aí; tipo de ervas a se utilizar no fumeiro? *Existe a possibilidade de um bacon sem sal e sem outros tipos de sódio; no caso, somente defumado? E qual marca vende bacon só defumado sem sal? Agradeço e abraços. vangueliskitaro@hotmail.com
Comentário por Márcio Souza 04.19.12 @ 3:40Estou peparando o meu, hoje se completou 7 dias de cura,até aqui sem problemas.
Comentário por Edson 12.05.12 @ 17:38Olá, gostaria de saber qual a temperatura e a umidade adequadas para a maturação do presunto crú de pato? Sou brasileiro mas moro em Braga – Portugal, aqui chove bastante e faz 12º C em média no inverno. Obrigado.
Comentário por Francisco 12.25.12 @ 21:13Deixe um comentário


